Não sabia o que fazer com a angústia de pensar o tempo todo em gestar, parir e maternar: fiz um blog!
domingo, 8 de fevereiro de 2015
Destino - Página 2 - O Beta HCG
Antes mesmo de pensar em qualquer possibilidade que ligasse atraso menstrual a concepção, Madá foi ao salão fazer o de sempre: cortar, pintar, progressivar e escovar. Sabia que se duas listras ordinárias aparecessem numa tira de papel seus cabelos cairiam num limbo entre raiz cacheada e pontas lisas. Melhor garantir a de hoje. Só por hoje.
O salão é um lugar alheio ao mundo interno e extremamente conectado aos anseios sociais. Já reparou? Quando uma mulher se senta em uma cadeira de um salão de beleza (o singular é proposital) e pega uma revista feminina ela é capturada. Se torna imperativo renovar o guarda roupas (aqui é plural, mas só na quantidade), a maleta de maquiagem, o estoque de sapatos... inovar na cama, no comportamento e no trabalho.
Nesse mundo do Eu não cabe nós. Ninguém faz nada de novo, mas é preciso estar impecável para ser o mais do mesmo. 30 maneiras de atingir o orgasmo. Mas sem nenhuma conexão entre sexo, vida e crescimento emocional, que dirá espiritual.
E neste universo paralelo estava Madá, imersa entre uma bolsa amarela e acessórios eróticos pensando em tudo aquilo que não tem, quando a escovista chegou com um espelho para lhe mostrar o serviço.
_Pronto querida, juba domada. Gostou?
Ela nem respondeu, se levantou, jogou o cabelo pra frente, depois pra trás, tipo garota do fantástico, ajeitou a franja e saiu dalí se sentindo única, só faltou a bolsa amarela. Deu cinco passos e logo veio uma cólica chata só pra lembrar que ela talvez não fosse mais una.
Agora sim, renovada pelo templo da beleza ela poderia enfrentar todos os desafios. Chegou ao laboratório, pegou uma senha preferencial, jogou a franja pra trás e pediu sem medo:
_ Quero fazer um Beta HCG, por favor.
Fez o exame e foi lanchar no shopping. Nem tocou no sanduíche. Digitava login e senha sem parar no site do laboratório. Já era quase a hora ir trabalhar e ela ainda não sabia se podia ou não comprar a calça 38 na promoção.
Detonou o milk shake sem ver. Voltou pra buscar outro e na filha deu um enter.
_Batata! Quero dizer, milk shake!
_hum? Disse a atendente
_nada não.
Saiu da fila, pegou a bolsa e caminhou arrastada. Todo peso do mundo cabia nas suas costas.
Ao passar pelo porta de saída percebeu que chuviscava. Pegou a sombrinha que sempre estava na bolsa. Mais 20 passos e céu desabou num temporal impressionante. Parecia que as nuvens choravam seu pranto. Sim, ela estava grávida.
Chorou sem parar, andou sem parar. E sem parar de pensar, no fim não podia não lamentar a chuva no dia do salão. Sacanagem!
O céu inteiro escureceu. Raios, trovões e a lembrança de só ter sido contratada por ter boa aparência e não ter filhos. Nada disso duraria por muito tempo. Não podia se imaginar como uma cobra que engoliu um bezerro. Aquela calça 38 tão cedo lhe serviria, se é que um dia irão lhe servi qualquer coisa do seu guarda roupas. E as 30 formas de se atingir o orgasmo? Como pode uma mulher grávida transar? E o neném, gente? Ele escuta. E além do mais, quem vai querer ir pra cama com a irmã mais nova da Filó. Oh coitada!
Logo agora que ela se formou, que tá trabalhando, que vai receber seu primeiro salário. Vai ficar com os peitos murchos? Isso não era justo.
_Como eu vou contar para o meu chefe? Se meu marido não fosse tao preguiçoso pra usar camisinha. Mas se eu também não fosse tao relapsa com a pilula.
Tinham mais raios e trovões dentro da cabeça dela do que no céu. Foi assim até chegar a clínica de Hemodiálise.
Entrou no salão, ouviu algumas piadas dos pacientes por estar molhada e no final do corredor esta Iara. Braço esticado, cheio de marcas que denunciavam seu longo tempo de tratamento. Tinha a blusa levantada até a altura dos seios expondo aquele barrigão de sete meses. Ela estava com fone de ouvido. Escutava um mantra para gestantes enquanto acariciava o ventre.
O primeiro impulso de Madá foi pensar:
_ Abaixa essa blusa. Gastura dessa pança.
Não sabia bem o motivo, mas a cena lhe pareceu erotizada. Depois teve pena.
Quando se aproximou para aferir a pressão, Iara olhou bem nos seus olhos e disse:
_ Você está diferente hoje.
Madá desviou o olhar e respondeu:
_ Chuva! Não há chapinha que resista.
_ Não é isso. Nem de longe. Você tá com uma luz.
Madá logo associou a palavra Luz a expressão "dar a Luz". Um tremor percorreu seu corpo todo. Pensou rápido:
_ Vou sair de perto dessa bruxa buchuda.
_90x60 sua pressão. Vou reclinar sua poltrona. Sua pressão ta muito baixa. Fica quietinha pra você descansar.
Nada com um termo técnico e uma mudança no ambiente desfaçada de cuidado para fazer calar um paciente. E Madá logo experimentará essa manobra do lodo de lá.
links pertinentes
Produtos químicos para gestantes e lactantes
http://www.denisesteiner.com.br/ginecologia/produtos_%20quimicos_capilares_e_gestacao.html
30 formas de atingir o orgasmo
www. hahahahaha, mentira que você achou que ia fazer isso aqui??? Não vamos criar regras para a sexualidade de ninguém, não é mesmo.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Destino - página um. O início da História
A moça desta história, Madalena, mora em Belo Horizonte, ela adora a cidade apesar de achar que se tivesse praia seria melhor. Ela se casou, mas ainda mora na casa dos pais. Seria ótimo se eles não dormissem tão tarde. Trabalha de vendedora no Shopping, a comissão é excelente, pena que as promoções para funcionários a consomem. E nesta vida quase boa ela está preste a se formar enfermeira. Não foi fácil chegar ao último período. A faculdade quase foi fechada por irregularidades no currículo, mas os juros das mensalidades atrasadas sempre cumpriram assiduamente sua função: a de lembra-la que não podia gastar R$ 200,00 reais numa calça jeans sem sofrer as consequências disso.
Enfim, chegou a formatura. Era tanta angústia junta: medo de não ser uma boa profissional, de não conseguir disputar uma vaga com quem fez uma federal, de ser humilhada por médicos no trabalho... Todas as questões eram pertinentes menos a de ter uma diarreia durante o discurso como oradora. Sim, ela estava se borrando. Eram tantas questões passando pela sua cabeça que ela não podia mais se concentrar no trabalho. Logo, foi mandada embora. E ao subir no púlpito para discursar levou consigo o peso de uma desempregada que ainda mora com os pais aos 30 anos e não sabe o que fazer para pagar o financiamento estudantil. Ela não evacuou, mas chorou.
Uma semana após a formatura ela recebeu uma ligação para comparecer a uma entrevista de seleção. Era uma clínica de hemodialise. Como ela passou boa parte da faculdade fazendo estágios rápidos amontoados pelo trabalho na loja, nunca tinha nem entrado num salão como aquele. Mas, bora lá.
Passou na entrevista do RH e na temida entrevista com o Dr. dono da clínica teve que ouvir que a pouco experiência não era problema pois ele tinha um perfil que compunha bem o quadro da clínica: era branca, bonita e não tinha filhos. Pensou: oportunidade não se desperdiça! E lá foi ela furar fistulas no segundo turno da diálise.
Tudo naquele lugar a impressionava: o cheiro de ureia, o tempo de duração do procedimento, a história de vida das pessoas. Madalena passou parte do primeiro dia agradecendo a Deus por ter rins perfeitos e a outra parte pensando que nunca mais consumira sódio.
Quando tudo já parecia bem impactante ela viu uma cena de amargar: não dava para acreditar, mas tinha uma moça grávida na máquina.
_Meu Deus como ela consegue passar por tudo isso, todos os dias?! (Gestantes que fazem hemodialise devem se submeter ao procedimento 6 vezes por semana)
Se a rotina de 4 horas de diálise, três vezes por semana já a assustava, era inimaginável alguém planejar engravidar e passar por isso todos os dias, durante nove meses.
_ Moça doida! Pensou ela.
No dia seguinte, mal abriram o salão e entrou a grávida, andando estranho. Sentou-se na poltrana e sorriu pra Madá.
_Tudo bem Iara?
_ Tudo ótimo Madá! Estamos cada vez melhor!
Madá sorriu enquanto pensava:
_ Como pode estar "melhor"? Ela não capta os riscos de estar grávida e ser dialítica?
Mas não satisfeita, Iara estica a conversa.
_ Hoje eu fui ao pré natal e minha enfermeira afirmou que está tudo indo bem para o meu parto normal.
Madalena quis morrer neste momento. Não dava mais pra segurar o sorriso amarelo. Ela passou quatro anos da faculdade ouvindo e vendo os riscos do parto normal para uma mulher saudável, imagine só para uma pessoa com uma doença crônica.
_Mãezinha, (sempre achou fofo quando via seus professores se referirem assim as pacientes grávidas), você não tem noção do que está falando. Quer que seu filho seja doente como você? Pra quê uma mãezinha sem rim vai se submeter a dor e a incerteza de um parto normal? Já não basta ser furada todos os dias?
Iara também não sorria mais.
_Eu não sou mãezinha, sou mãe pra C#$!@$, e você devia estudar mais para evitar falar tanta besteira.
Choque. Mulher falando palavrão já é tão feio, grávida então é imperdoável. Não falou nada, mas passou o caminho pra casa todo praguejando: Sou formada, Querida! Quando tiver um filho deficiente vem atras da enfermagem pra passar sonda, mas não ouve quando a gente fala.
Em casa não conseguiu comer. A dor de cabeça era forte, só não ganhou do sono que ultimamente tem tomando conta da sua vida. Acordou de madrugada com a boca cheia de saliva. Estranho. Foi ao banheiro, na volta passou na geladeira e comeu feijão gelado com pão francês. Esquisito. Acordou com cólicas que deviam ser menstruais se ela não estivesse com 14 dias de atraso.
Links pertinentes
Cartilha de direitos dos pacientes Renais Crônicos
http://www.portas.ufes.br/sites/www.portas.ufes.br/files/Cartilha_FDV_Direitos_Pac_Renais%20Cr%C3%B4nicos.pdf
Dissertação de mestrado em Nefrologia: A gestação em pacientes renais crônicos
http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/6203/000482407.pdf
http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/6203/000482407.pdf
domingo, 25 de janeiro de 2015
Relato de Doulagem - Quando um parto gera outros frutos
Um dia tava lendo uns emails numa lista de incentivo ao parto normal e li um texto de uma gestante que me tocou, mais que o comum. Ela falava da gravidez não planejada, da pouca idade e da falta de apoio do seu circulo social ao seu desejo pelo parto. Aquele e-mail foi um chamado. Entrei em contato com ela pelo Facebook e começamos a conversar. Ela é do interior e não sabia se teria estrutura para vir a BH ter seu filho no Sofia, já que sua cidade não oferecia assistência humanizada.
Dessas conversas nasceu uma amizade e uma parceria que com certeza não são desse plano. Não podia ser diferente, eu seria sua Doula. Nos falamos praticamente todos os dias, sobre tudo e sobre parto. Até que no segundo trimestre de gestação, durante um ultrassom, foi detectado uma baixa do líquido amniótico. Pelos profissionais de sua cidade, estava decretada a cesárea. Mas ela, teimosa que só, delicadamente empinou o nariz e saiu dizendo que iria para o Sofia. Foi aí que nos conhecemos pessoalmente. Menina linda, meiga, carinha de criança e persistência de gente grande.
Nesta trajetória da Simone, aos olhos de pouca fé, tudo conspirava contra: ela era nova, recém casada, morava no interior, longe de BH, não tinha muito apoio social e no final da gestação ainda apareceu essa questão do oligoidrâmnio (diminuição do Líquido amniótico) e pra fechar a maré do contra, seu marido teve uma viagem a trabalho agendada para a época do parto, pra São Paulo. Parecia que ela tava condenada a fazer o que todo mundo faz: ir ao médico e agendar sua cesárea "salvadora".
De repente ela recebeu um "Raio Parideira" (invenção minha: mistura de raio gourmetizador, com chama violeta) e a bichinha resolveu todos os seu problemas como quem esfarela cinzas ao vento.
Descobriu que tinha uma prima que vivia em BH (isso!), que era enfermeira (Jóia!), que era obstetra (Maravilha!!!) e que trabalhava no Sofia (PQP!!!). Sua mãe assistiu ao filme "O Renascimento do parto" e se transformou na mais nova índia empoderada de Lafaiete.
Então vieram Simone, sua mãe e o marido para BH consultar com a Kelly, a prima, e o problema da Oligoidrâmnia foi resolvido com hidratação. Mas ainda restou um, o marido estaria em SP.
Então vieram Simone, sua mãe e o marido para BH consultar com a Kelly, a prima, e o problema da Oligoidrâmnia foi resolvido com hidratação. Mas ainda restou um, o marido estaria em SP.
Óbvio que quem cria esse tipo de conexão com seu corpo e com o universo antevê as coisas. Simone sempre me disse que sua gestação não passaria de 36 semanas. E assim foi. Com exatamente esta idade gestacional ela me ligou avisando que estava com uma cólica suave. Logo depois avisou que iria para a casa da prima. Durante toda a fase latente ela foi me dando notícias, suas e do Bruno que estava em SP. Ninguém sabia se daria tempo para ele chegar, afinal: SP, trânsito, ônibus e bebês são coisas que não se pode prever a chegada.
Lá pelas duas horas da madrugada recebo uma ligação da Simone, serena, tranquilíssima avisando que iriam para o Sofia. E eu também fui. Dirigindo até o hospital fiquei pensando: É o primeiro parto que doularei depois de grávida. Passei mal a semana toda: nauseada, fraca, lerda... será que terei forças, será que não vou vomitar no bebê, será que não era melhor manda a doula back up no meu lugar? Quando o sinal fechou atravessou na minha na faixa de pedestres uma doninha de bengala arrastando uma perna e empurrando um carrinho com garrafa de café e uma caixa com pão. Ah ném que vergonha! Eu diante de duas mulheres repletas de coragem e eu com medo de vomitar! Só não comprei um café porque o sinal abriu. Vou me alimentar da vida refletida por essas mulheres que poem o mundo pra girar e eu também quero ir.
Cheguei ao PA do Sofia e o Bruno estava lá! Estava também a tia da Simone, Mãe da Kelly.
Aguardamos ao fim da avaliação e fomos encaminhadas ao quarto Maria Nazareth. Perguntei a Simone como ela estava e ela respondeu sorrindo que tava tudo bem. Fomos para o chuveiro com a bola suíça. Lá as contrações se ritmaram ainda mais. Lembro que ela me falou:
_ Nossa ta começando a apertar, tem alguma coisa que eu possa fazer para evitar isso?
E eu respondi:
_ Nós não vamos brigar com nada que você está sentindo. Se é dor, vamos a dor. Agora o momento é de entrega, se abre que seu filho vai chegar.
Chamei o Bruno e passei a ele o vidro do óleo de massagem, deixei os dois no banheiro, reduzi a luz e fechei a porta. Nada como intimidade e carinho para o conforto da dor. Bruno estava afoito para ajudar. Queria cuidar de sua família, amparar sua mulher. Era uma família nova, em todos os sentidos. Um casal de adolescentes, praticamente, preparando-se para receber um bebezinho. Mas eu sentia que aquele momento formava um elo entre eles que jamais seria esquecido. cuidei para que fosse lindo!
Enquanto isso fui conversar com a Tia da Simone. Peça rara, me fez dar muitas risadas. Contei que também estava grávida e ela cuidou de mim como uma tia emprestada. Aproveitei para papear com a Kelly, ela é dessas profissionais na medida. Doce sem ser grudenta e técnica sem ser pragmática, de admirar. Seria assistida por ela no meu parto tranquilamente. Falamos sobre indicação de ultrassom para gestantes de risco habitual, no caso eu, ameacei pegar algo para comer e a Simone saiu do chuveiro com cara de dor, pela primeira vez. Deitou-se na cama. Bruno continuou com as massagens na lombar. Ela me chamou e perguntou se não tinha como usar um anestésico local fraquinho, olhei para ela com cara de "Oi?". Eu a confortei, disse que estava próximo e tal. A Kelly sugeriu um rebozo. Abaixei-me para pegar um xale na bolsa e ela queixou-se de muito calor, Kelly e eu nos entre olhamos. Simone deu um grito e falou que queria fazer cocô. E nós: já?! Aí foi aquela correria discreta! rsrsrs
Kelly foi encher a banheira e eu ajuda-la a tirar a roupa. Não deu tempo nem de uma coisa, nem da outra. Simone gentilmente avisou: _Gente, tá muito forte, vai sair. Coloquei a Simone na banqueta, posicionei o Bruno e o resto a ela conduziu. Pediu que eu a acompanhasse numa vocalização. Fizemos juntas. Sabe quando se faz aquele tipo de meditação de comunicação celestial? Aquele que o som te eleva? Então, foi isso que rolou. Minha experiência desse momento foi assim, eu e meu filho, ela e o filho dela, elevados!
Com quatro contrações, digo amigas parideiras, apenas quatro contrações embaladas pelo nosso aaaaaaaaaaaa, e o Luca nasceu, parcialmente empelicado, lindo, fofo, saudável e a cara do pai (é isso que eu acho foda)
Não deu tempo de chamar a fotógrafa. Eu mesma tirei as fotos com o celular da Kelly.
Luca era atento ao meio, tal a mãe, aconchegava-se no silêncio. Por isso a importância de um ambiente com tranquilidade e privacidade para o pós-parto também.
Tenho que confessar que o cheiro, antes tão agradável a mim, do líquido amniótico, me deu uma tonteada. Sentei a borda da banheira e agradeci por ela estar vazia, se eu caísse seria Trash.
Tão logo pariu, Simone estava amamentando. Não foi preciso sutura, pois não teve laceração. Levantou-se para tomar banho e para completar a onda de boa parideira já não tinha barriga, pasmem vocês.
Simone foi um desses casos onde tudo deu certo. Acho que porque todas as guerras foram vencidas antes do parto. Mas a vida de mãe só começou. Ela que antes lutou para plantar agora é semente em sua família e em sua cidade. Fez uma fanpag no Facebook, Donna Chica, e está se movimentando para trabalhar com a humanização do parto em Lafaiete, através de grupos de apoio a gestantes. Num é pra morrer de orgulho?! Nasci de orgulho! Nasci uma Doula melhor depois de você!
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terça-feira, 20 de janeiro de 2015
A sua felicidade casou com a dos outros?
Então vamos aos exemplos de aprendizagem. Lá tava eu na festa, recebendo mil "Parabéns!" quando uma pessoa de extrema, digo Extrema, importância para mim, se aproximou e proferiu a seguinte frase: Porque você veio com este vestido (justo), você não sabe que eu tô gorda! Isso sem esboçar um único sorriso disfarçador de recalque. Nos cinco segundos que se passaram eu refiz mentalmente meus 8 anos de análise e no fim concluí: Hoje serei feliz por mim e por mais ninguém. Dei um abraço forte nela e falei ao seu ouvido: Pois eu tô achando você linda! Saí sem olhar pra atrás e curti a festa como se fosse meu último dia na terra.
E daí? Isso poderia ter sido bem desagradável, mas minha posição interna não só me ajudou naquele dia como também me ensinou uma lição fundamental quando fui mãe. As pessoas não são obrigadas a partilhar da sua alegria. Principalmente se o caminho que elas percorreram na vida a levaram para decepções, tristezas e angústias. Óbvio que você também não precisa se alinhar a melancolia do mundo, mas é reconfortante reconhecer a angústia alheia e nela não se fixar. Entender que o que pertence ao outro é dele e o seu é só seu. Na alegria ou na tristeza.
Quando um amigo ou familiar ficar perguntando: Você vai fazer parto normal? Porque não faz uma cesárea? Muito mais rápida, segura, limpa... Você quer ficar parecendo bicho? Reflita!
Se você tomou a decisão pelo parto normal, não espere aprovação das pessoas, elas não precisam. Nem crie expectativas de que todas ficarão super felizes por você ter conseguido parir um bebê de 4kg sem laceração. Sempre terá um engraçadinho desinformado para falar do perímetro da sua vagina. Aproveite as boas e más experiências e construa a sua vida, a sua maternidade. Case-se com a sua felicidade e vivam juntos para sempre!
Nota somente para o noivo: Eu casaria de novo com vc mil vezes!
Nota somente para o noivo: Eu casaria de novo com vc mil vezes!
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segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
Novo Ciclo: Romance!
Eu era dessas mulheres que ao assistir um canal feminino mudava de programação assim que começava qualquer atração que tivesse: Crianças, parto e família. E ainda pensava: que insistência em fazer da mulher uma reprodutora! Ah não, acaba um programa super interessante de culinária e começa um de parto?! Indigesto.
Assim que me casei decretei logo que não queria filhos nos próximos cinco anos. Especialização, Mestrado, terminar o Francês, curso de psicanálise... mil prioridades. Com cinco meses depois eu tava grávida. O FDP do meu endocrino repediu mais de 10 vezes que eu precisaria de muito tratamento pra engravidar e sem fazer nada, ou quase nada, eu engravido.
Foi um chacoalho da vida que me tirou da linha e me pôs a fazer as únicas coisas que me aliviam quando a angústia bate a porta: conversar, estudar e escrever.
Comecei conversando com pessoas da área de saúde, mães que tiveram cesárea e parto normal. Estudei tudo que achei pela frente, conheci o universo do parto humanizado e agora escrevo este humilde blog.
Nesta fase, inicio um novo ciclo, (esse blog tem ciclagem tão rápida que é quase bipolar). O blog vai trazer, em dose homeopáticas, um romance com duas protagonistas: Madá e Hanna. São mulheres que como todas nós vão lutar para viver o sagrado feminino numa sociedade patriarcal e machista. Óbvio que terá gestação, parto, família, mas por favor, não troquem de canal. rsrs
Acompanhe aqui no blog, em breve!
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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Disputa entre mães
Uma vez eu falei pra uma colega que não conseguia mais ir a eventos sociais porque minha filha não parava quieta. Ela disse que isso nunca acontecia com ela. Que sua filha sempre ficou quietinha, que era um princesinha. Na hora me deu uma inveja e uma sensação de inadequação. Passado umas semanas nos encontramos num evento com nossas crianças. A filha dela se portou tal e qual a minha. Ou seja, não deram sossego nem pra conversamos, como era esperado para duas crianças, mas elas era duas meninas.
Eu interpretei uma características da minha filha com algo da minha personalidade. Por isso fiquei ofendida com o suposto exito da outra mãe. Era como se ela soubesse educar melhor do que eu. Quando percebi que as coisas não eram bem assim, me deu um certo alívio que logo deu lugar a um questionamento: Por que meninas não podem brincar num lugar tão cheio de estímulos? De onde vem essa culpa por não adestrar suficientemente uma menina para que ela não faça aquilo que é particular a quase todas as crianças: brincar, subir nas coisas, correr...
Culturalmente somos levadas a pensar que uma mulher de verdade deve ser a melhor mãe do mundo e isso significa fazer de sua filha uma versão das princesas da Disney, ou seja uma menina quietinha e bem comportada, sinônimo de dignidade. Nada disso se aplica aos meninos. Tô mentindo?
Descobri com esse episódio que a minha idealização de ser uma mãe perfeita para uma filha perfeita me deixaram decepcionada quando apareceu um furo neste ideal. Provavelmente foi esse mesmo mecanismo que fez com que a outra mãe mentisse.
Hoje se tem algo ao qual me dedico é contra o machismo que nos impõe o ideal perverso da perfeição como mulheres e mães. E para manter esse padrão estimula a competição entre nós. Somos todas irmãs imperfeitas, mas dando o nosso melhor. Não é rivalizando que mudaremos este cenário, mas nos unindo para alcançar um futuro digno as nossas meninas e meninos
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Como desatar os laços da supervisão constante sem desligar o amor?
Outro dia, eu acompanhava uma gestante na casa de Terapias Integrativas do Hospital Sofia Feldman e enquanto ela recebia um escalda pés eu conversava com outros acompanhantes. Como também estou grávida, o assunto não podia ser outro além de filhos. A mãe de uma gestante me falou uma frase que ecoou nos meus ouvidos: "Quando os filhos são pequenos nós somos protagonistas mas, quando elas crescem nós nos tornamos expectadores".
Porra! Expectadora! Pensei. Será esse o futuro que me espera? Pensei na minha mãe, lembrei da minha sogra e de outra mulheres mães de filhos adultos. Refleti sobre esse lugar da mãe na terceira idade e principalmente sobre o lugar que eu quero ocupar quando eu for mãe da mãe.
Como será estar inteiramente integre a um ser e depois deixar de estar? Se num primeiro tempo a mãe está totalmente conectada ao bebê, como desatar os laços da supervisão constante sem desligar o amor? E mais, como ocupar o espaço antes inteiramente tomado pela maternagem?
Cada sujeito encontrará suas saídas. Contudo, uma reflexão a respeito seja fazer uma distinção entre dedicação e amor. Se associarmos que o amor dos filhos estão diretamente ligados aos cuidados que damos a eles essa transição talvez nunca se faça. Uai, se o menino me ama porque eu faço tudo por ele, vou continuar tirando a cebola da salada dele, no auge dos seus trinta anos.
Mas se o amor e cuidado são uma coisa só para um recém nascido, ao tornar-se adulto o cuidado constante é para a sobrevivência de quem? Querer ser protagonista na vida de outro adulto é uma tentativa de viver uma vida que não lhe pertence. E digo mais, porque hoje tô mau que nem o pica pau, nunca lhe pertenceu. Putz! A magia das mães não é a onipresença, mais a paciência de revisitar sua vida na do filho e saber que esta não é a sua.
Inevitavelmente a gente se vê nos filhos. Relembra as escolhas dos nossos pais, as nossas próprias ações e se o passado for de dor toda recordação trará consigo uma sensação de que as coisas podiam ter sido diferentes. E no intuito afoito de se diferenciar repetimos os mesmos medos. E toda vez que repetimos, entrando na "roda viva" somos expectadores de nós mesmos. O melhor jeito de fazer o trânsito entre a mãe de RN para a mãe de um ser adulto é não deixar de ser protagonista da sua própria vida, entendendo que na vida alheia, mesmo a do seu filho, seremos sempre expectadores.
E agora, como filha que repete mãe, repetirei uma frase que ouvi da minha Professora Rosana Vieira: "Quando você não tem objetivo de vida, vira objeto na vida dos outros".
Esse texto propõe muito mais questões do que respostas, talvez por ser esta um peculiaridade da autora, mas convido a vocês a pensar junto comigo em soluções possíveis para estas questões. A maternidade também se faz no coletivo. E não pode demorar, porque minha filha tá crescendo!
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