Não sabia o que fazer com a angústia de pensar o tempo todo em gestar, parir e maternar: fiz um blog!
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domingo, 8 de fevereiro de 2015
Destino - Página 2 - O Beta HCG
Antes mesmo de pensar em qualquer possibilidade que ligasse atraso menstrual a concepção, Madá foi ao salão fazer o de sempre: cortar, pintar, progressivar e escovar. Sabia que se duas listras ordinárias aparecessem numa tira de papel seus cabelos cairiam num limbo entre raiz cacheada e pontas lisas. Melhor garantir a de hoje. Só por hoje.
O salão é um lugar alheio ao mundo interno e extremamente conectado aos anseios sociais. Já reparou? Quando uma mulher se senta em uma cadeira de um salão de beleza (o singular é proposital) e pega uma revista feminina ela é capturada. Se torna imperativo renovar o guarda roupas (aqui é plural, mas só na quantidade), a maleta de maquiagem, o estoque de sapatos... inovar na cama, no comportamento e no trabalho.
Nesse mundo do Eu não cabe nós. Ninguém faz nada de novo, mas é preciso estar impecável para ser o mais do mesmo. 30 maneiras de atingir o orgasmo. Mas sem nenhuma conexão entre sexo, vida e crescimento emocional, que dirá espiritual.
E neste universo paralelo estava Madá, imersa entre uma bolsa amarela e acessórios eróticos pensando em tudo aquilo que não tem, quando a escovista chegou com um espelho para lhe mostrar o serviço.
_Pronto querida, juba domada. Gostou?
Ela nem respondeu, se levantou, jogou o cabelo pra frente, depois pra trás, tipo garota do fantástico, ajeitou a franja e saiu dalí se sentindo única, só faltou a bolsa amarela. Deu cinco passos e logo veio uma cólica chata só pra lembrar que ela talvez não fosse mais una.
Agora sim, renovada pelo templo da beleza ela poderia enfrentar todos os desafios. Chegou ao laboratório, pegou uma senha preferencial, jogou a franja pra trás e pediu sem medo:
_ Quero fazer um Beta HCG, por favor.
Fez o exame e foi lanchar no shopping. Nem tocou no sanduíche. Digitava login e senha sem parar no site do laboratório. Já era quase a hora ir trabalhar e ela ainda não sabia se podia ou não comprar a calça 38 na promoção.
Detonou o milk shake sem ver. Voltou pra buscar outro e na filha deu um enter.
_Batata! Quero dizer, milk shake!
_hum? Disse a atendente
_nada não.
Saiu da fila, pegou a bolsa e caminhou arrastada. Todo peso do mundo cabia nas suas costas.
Ao passar pelo porta de saída percebeu que chuviscava. Pegou a sombrinha que sempre estava na bolsa. Mais 20 passos e céu desabou num temporal impressionante. Parecia que as nuvens choravam seu pranto. Sim, ela estava grávida.
Chorou sem parar, andou sem parar. E sem parar de pensar, no fim não podia não lamentar a chuva no dia do salão. Sacanagem!
O céu inteiro escureceu. Raios, trovões e a lembrança de só ter sido contratada por ter boa aparência e não ter filhos. Nada disso duraria por muito tempo. Não podia se imaginar como uma cobra que engoliu um bezerro. Aquela calça 38 tão cedo lhe serviria, se é que um dia irão lhe servi qualquer coisa do seu guarda roupas. E as 30 formas de se atingir o orgasmo? Como pode uma mulher grávida transar? E o neném, gente? Ele escuta. E além do mais, quem vai querer ir pra cama com a irmã mais nova da Filó. Oh coitada!
Logo agora que ela se formou, que tá trabalhando, que vai receber seu primeiro salário. Vai ficar com os peitos murchos? Isso não era justo.
_Como eu vou contar para o meu chefe? Se meu marido não fosse tao preguiçoso pra usar camisinha. Mas se eu também não fosse tao relapsa com a pilula.
Tinham mais raios e trovões dentro da cabeça dela do que no céu. Foi assim até chegar a clínica de Hemodiálise.
Entrou no salão, ouviu algumas piadas dos pacientes por estar molhada e no final do corredor esta Iara. Braço esticado, cheio de marcas que denunciavam seu longo tempo de tratamento. Tinha a blusa levantada até a altura dos seios expondo aquele barrigão de sete meses. Ela estava com fone de ouvido. Escutava um mantra para gestantes enquanto acariciava o ventre.
O primeiro impulso de Madá foi pensar:
_ Abaixa essa blusa. Gastura dessa pança.
Não sabia bem o motivo, mas a cena lhe pareceu erotizada. Depois teve pena.
Quando se aproximou para aferir a pressão, Iara olhou bem nos seus olhos e disse:
_ Você está diferente hoje.
Madá desviou o olhar e respondeu:
_ Chuva! Não há chapinha que resista.
_ Não é isso. Nem de longe. Você tá com uma luz.
Madá logo associou a palavra Luz a expressão "dar a Luz". Um tremor percorreu seu corpo todo. Pensou rápido:
_ Vou sair de perto dessa bruxa buchuda.
_90x60 sua pressão. Vou reclinar sua poltrona. Sua pressão ta muito baixa. Fica quietinha pra você descansar.
Nada com um termo técnico e uma mudança no ambiente desfaçada de cuidado para fazer calar um paciente. E Madá logo experimentará essa manobra do lodo de lá.
links pertinentes
Produtos químicos para gestantes e lactantes
http://www.denisesteiner.com.br/ginecologia/produtos_%20quimicos_capilares_e_gestacao.html
30 formas de atingir o orgasmo
www. hahahahaha, mentira que você achou que ia fazer isso aqui??? Não vamos criar regras para a sexualidade de ninguém, não é mesmo.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Destino - página um. O início da História
A moça desta história, Madalena, mora em Belo Horizonte, ela adora a cidade apesar de achar que se tivesse praia seria melhor. Ela se casou, mas ainda mora na casa dos pais. Seria ótimo se eles não dormissem tão tarde. Trabalha de vendedora no Shopping, a comissão é excelente, pena que as promoções para funcionários a consomem. E nesta vida quase boa ela está preste a se formar enfermeira. Não foi fácil chegar ao último período. A faculdade quase foi fechada por irregularidades no currículo, mas os juros das mensalidades atrasadas sempre cumpriram assiduamente sua função: a de lembra-la que não podia gastar R$ 200,00 reais numa calça jeans sem sofrer as consequências disso.
Enfim, chegou a formatura. Era tanta angústia junta: medo de não ser uma boa profissional, de não conseguir disputar uma vaga com quem fez uma federal, de ser humilhada por médicos no trabalho... Todas as questões eram pertinentes menos a de ter uma diarreia durante o discurso como oradora. Sim, ela estava se borrando. Eram tantas questões passando pela sua cabeça que ela não podia mais se concentrar no trabalho. Logo, foi mandada embora. E ao subir no púlpito para discursar levou consigo o peso de uma desempregada que ainda mora com os pais aos 30 anos e não sabe o que fazer para pagar o financiamento estudantil. Ela não evacuou, mas chorou.
Uma semana após a formatura ela recebeu uma ligação para comparecer a uma entrevista de seleção. Era uma clínica de hemodialise. Como ela passou boa parte da faculdade fazendo estágios rápidos amontoados pelo trabalho na loja, nunca tinha nem entrado num salão como aquele. Mas, bora lá.
Passou na entrevista do RH e na temida entrevista com o Dr. dono da clínica teve que ouvir que a pouco experiência não era problema pois ele tinha um perfil que compunha bem o quadro da clínica: era branca, bonita e não tinha filhos. Pensou: oportunidade não se desperdiça! E lá foi ela furar fistulas no segundo turno da diálise.
Tudo naquele lugar a impressionava: o cheiro de ureia, o tempo de duração do procedimento, a história de vida das pessoas. Madalena passou parte do primeiro dia agradecendo a Deus por ter rins perfeitos e a outra parte pensando que nunca mais consumira sódio.
Quando tudo já parecia bem impactante ela viu uma cena de amargar: não dava para acreditar, mas tinha uma moça grávida na máquina.
_Meu Deus como ela consegue passar por tudo isso, todos os dias?! (Gestantes que fazem hemodialise devem se submeter ao procedimento 6 vezes por semana)
Se a rotina de 4 horas de diálise, três vezes por semana já a assustava, era inimaginável alguém planejar engravidar e passar por isso todos os dias, durante nove meses.
_ Moça doida! Pensou ela.
No dia seguinte, mal abriram o salão e entrou a grávida, andando estranho. Sentou-se na poltrana e sorriu pra Madá.
_Tudo bem Iara?
_ Tudo ótimo Madá! Estamos cada vez melhor!
Madá sorriu enquanto pensava:
_ Como pode estar "melhor"? Ela não capta os riscos de estar grávida e ser dialítica?
Mas não satisfeita, Iara estica a conversa.
_ Hoje eu fui ao pré natal e minha enfermeira afirmou que está tudo indo bem para o meu parto normal.
Madalena quis morrer neste momento. Não dava mais pra segurar o sorriso amarelo. Ela passou quatro anos da faculdade ouvindo e vendo os riscos do parto normal para uma mulher saudável, imagine só para uma pessoa com uma doença crônica.
_Mãezinha, (sempre achou fofo quando via seus professores se referirem assim as pacientes grávidas), você não tem noção do que está falando. Quer que seu filho seja doente como você? Pra quê uma mãezinha sem rim vai se submeter a dor e a incerteza de um parto normal? Já não basta ser furada todos os dias?
Iara também não sorria mais.
_Eu não sou mãezinha, sou mãe pra C#$!@$, e você devia estudar mais para evitar falar tanta besteira.
Choque. Mulher falando palavrão já é tão feio, grávida então é imperdoável. Não falou nada, mas passou o caminho pra casa todo praguejando: Sou formada, Querida! Quando tiver um filho deficiente vem atras da enfermagem pra passar sonda, mas não ouve quando a gente fala.
Em casa não conseguiu comer. A dor de cabeça era forte, só não ganhou do sono que ultimamente tem tomando conta da sua vida. Acordou de madrugada com a boca cheia de saliva. Estranho. Foi ao banheiro, na volta passou na geladeira e comeu feijão gelado com pão francês. Esquisito. Acordou com cólicas que deviam ser menstruais se ela não estivesse com 14 dias de atraso.
Links pertinentes
Cartilha de direitos dos pacientes Renais Crônicos
http://www.portas.ufes.br/sites/www.portas.ufes.br/files/Cartilha_FDV_Direitos_Pac_Renais%20Cr%C3%B4nicos.pdf
Dissertação de mestrado em Nefrologia: A gestação em pacientes renais crônicos
http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/6203/000482407.pdf
http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/6203/000482407.pdf
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Disputa entre mães
Uma vez eu falei pra uma colega que não conseguia mais ir a eventos sociais porque minha filha não parava quieta. Ela disse que isso nunca acontecia com ela. Que sua filha sempre ficou quietinha, que era um princesinha. Na hora me deu uma inveja e uma sensação de inadequação. Passado umas semanas nos encontramos num evento com nossas crianças. A filha dela se portou tal e qual a minha. Ou seja, não deram sossego nem pra conversamos, como era esperado para duas crianças, mas elas era duas meninas.
Eu interpretei uma características da minha filha com algo da minha personalidade. Por isso fiquei ofendida com o suposto exito da outra mãe. Era como se ela soubesse educar melhor do que eu. Quando percebi que as coisas não eram bem assim, me deu um certo alívio que logo deu lugar a um questionamento: Por que meninas não podem brincar num lugar tão cheio de estímulos? De onde vem essa culpa por não adestrar suficientemente uma menina para que ela não faça aquilo que é particular a quase todas as crianças: brincar, subir nas coisas, correr...
Culturalmente somos levadas a pensar que uma mulher de verdade deve ser a melhor mãe do mundo e isso significa fazer de sua filha uma versão das princesas da Disney, ou seja uma menina quietinha e bem comportada, sinônimo de dignidade. Nada disso se aplica aos meninos. Tô mentindo?
Descobri com esse episódio que a minha idealização de ser uma mãe perfeita para uma filha perfeita me deixaram decepcionada quando apareceu um furo neste ideal. Provavelmente foi esse mesmo mecanismo que fez com que a outra mãe mentisse.
Hoje se tem algo ao qual me dedico é contra o machismo que nos impõe o ideal perverso da perfeição como mulheres e mães. E para manter esse padrão estimula a competição entre nós. Somos todas irmãs imperfeitas, mas dando o nosso melhor. Não é rivalizando que mudaremos este cenário, mas nos unindo para alcançar um futuro digno as nossas meninas e meninos
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
Protagonismo Feminino
Esse texto foi construído a partir da minha experiência clínica e teórica como Psicóloga e como mãe que se debruça sobre o universo do parto, sobretudo no espaço virtual de grupos de parto humanizado. Tendo essas duas vertentes decidi fazer um texto sem comprometimento científico, apenas um diálogo de uma psi observadora, sobre o tão falado Protagonismo Feminino.
Nas redes sociais podemos perceber como as pessoas buscam incessantemente um mestre que lhes digam como e pra onde caminhar. Quem nunca viu nos grupos virtuais perguntas como: o que acham da minha mãe assistir o meu parto?
Esses questionamentos, em geral, vêm de um momento de desorientação, não só técnico-
cientifico, mas do próprio desejo. Que tal se perguntar: quem eu quero do meu lado nessa hora? Como elas se comportam quando estou em situações limitrofes? As respostas podem te surpriender!
Talvez a distinção necessária aqui seja entre os conceitos: vontade e desejo.
Um não é maior do que o outro. A vontade a gente sempre conhece, já o desejo.... Atrás de uma vontade tem sempre um desejo e serem coincidentes não é uma regra, na maioria das vezes é a excessão. Por exemplo, a pessoa pode ir a mil médicos querendo se livrar de uma diarréia que a acompanha sempre, por nada e por tudo. É sua vontade se livrar dela, mas o seu desejo inconsciente é se manter "desandada", pois foi assim que ela aprendeu que seria amada, sendo a doente da familia. Ela pode fazer uma colonoscopia por ano e não obter nenhum diagnóstico ou ela pode buscar um caminho de trabalho que a coloque de frente ao seu inconsciente.
E aí, o que fazer? Uma vez entendido o processo psíquico da construção do sintoma, não precisamos ser escravos do nosso desejo! Podemos colocá-lo a favor de uma vida melhor. E aí, talvez e, por exemplo, " desandar" o sistema e parir naturalmente, sem que isso lhe custe nenhuma "prisão de ventre".
Quando se começa a ler os relatos de parto, vendo as fotos lindas, todas esperam um parto extraordinário.
Para ser espetacular seu parto não precisa ser de gêmeos, pélvicos e empilicados, no mar e com golfinhos! Se for, me mande as fotos. Se não for, será fora de série, pois foi o seu parto possível. Pode ser que ele demore mais do que pensou, que tenha mais gases do que você queria, mais intervenções do que você almejava. Mas ainda assim será o seu parto.
É ótimo o sentimento de pertença a um grupo. Ele nos faz sentir parte de um todo. Mas parte não quer dizer igual. O primeiro grupo ao qual pertencemos é a família. Na adolescência destoamos desse ambiente conhecido para construir outros laços. Lançar-se nesse novo mundo tem a intenção de nos apresentar num universo de possibilidades para além dos muros de casa. E isso é bom. É necessário, inclusive. É esse processo que nos ajuda a sair da condição infantil, les infan, aqueles que são falados, para a a fase adulta.
Contudo, venho observando um fenômeno interessante. Noto que há uma busca por adesão e aceitação a esse coletivo pelo espelhamento. Se em sua maioria as mulheres que já fazem parte desse grupo são vegetarianas, eu, viro logo vegana que é para garantir. Caricaturas a parte, o que tento dizer é que não sair do casulo e fazer tudo o que os familiares esperam é alienação. Isso não é um julgamento moral. É uma constatação. Quer dizer que naquele, momento você fez o era possível fazer, com os recursos emocionais existentes. Uma cesariana, por exemplo. Essa experiência não levará ninguém ao purgatório materno/freudiano/feldminiano. (Essa expressão foi inventada!)
Ela é apenas uma experiência. E como tudo que tem valor emocional pode ser retificado, significado e ressignificado quantas vezes você se propor.
Na outra ponta, buscar o parto normal humanizado para ser o avesso das experiências nucleares, te mantém na mesma referência. Fazer algo ou deixar de fazê-lo em função de alguém te conecta ao desejo do outro e não ao seu.
Nessa posição o grupo externo é colocado na posição de mestre.
O discurso da mulher, nesta condição, busca alguém que lhe dê o caminho das pedras. Já o do mestre quer dar o caminho que tape todos os seus furos. É casamento perfeito, não é!? É o lé com crê. Mas nesse jogo ninguém é senhor do seu desejo. Ninguém é sujeito e sim assujeitados as próprias vontades de serem plenos. Tornar-se um ser desejante pressupõe lidar com as falhas. Só há desejo se há falta. E isso é um saber construído.
Esse trabalho não passa pela identificação massissa, mas sim pela aceitação das diferenças. Então, OK se você é a mineira mas gaucha que existe e sua doula só come veg. Tudo bem se sua mãe achar que você é um bebê que vai parir outro bebê e sua sogra cura humbigo com fumo de rolo. Tudo isso pode coexistir no mesmo lugar. Um desejo não aniquila o outro. Até porque todos que te amam querem te ver feliz. E pra isso, você precisa apontar ( protagonizar) para o seu desejo.
O empoderamento não está no parto normal, está em você! Em qualquer situação ele sempre esteve e sempre estará em você. O parto normal humanizado é uma excelente ferramenta para alcançá-lo. Ele nos leva aos nossos extremos, ficamos frente a frente como nossos limites e para ultrapassá-los precisamos nos responsabilizar pelo nosso desejo. Quer um parto normal? Então terá que sustentá-lo emocionalmente e colher tudo que ele trouxer de bom e ruim. E aí, construído isso, quem sabe, durante o trabalho de parto você não prove a feijoada vegetariana da Doula, receba o cafuné da sua mae e... Ah fumo de rolo não, né. Rsrsrs brincadeira, ou não.
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