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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Relato de uma não doulagem




Natália me procurou por indicação de uma amiga em comum. Pediu informações sobre parto normal, contou que tinha feito uma cesárea há alguns anos atrás por falta de dilação e bacia estreita (abaixo do texto bases científicas sobre esse equívoco de diagnóstico). A sentença foi dada antes das 40 semanas e do trabalho de parto. Agendou-se a cirurgia. O obstetra era o tradicional médico da família e novamente era o titular nesta nova gestação.

Eram tantos questionamentos dela que o espaço virtual estava pequeno. Sugeri a leitura do meu blog e outros textos e um encontro presencial para falarmos sobre suas dúvidas. Como ela iria ao Sofia para conhecer o hospital, eu me dispus a encontra-los lá. 

Ela estava no início do nono mês e despertando para o mundo do parto humanizado. Todas nós sabemos, em maior ou menor grau, como é difícil se livrar das amarras do sistema, sobretudo com a gestação avançada e os medos peculiares a esta fase. Aquelas frases que sempre ouvimos da mães que chegam a nós como primeira referência a humanização, foram ditas: "mas eu me sentiria mais segura com um médico na sala", "E se eu escolher o parto normal e alguma coisa de errado acontecer?" Nada que nenhuma mulher que cogitou o parto humanizado não tenha sentido em algum momento, mas a frequência destas sentenças nos mostram o poder modelador do sistema cesarista.

A visita foi bem tranquila e marido e esposa fizeram perguntas a mim e a ouvidora que nos apresentou a instituição. No final fiquei com a sensação de que ele gostou mais do que ela. A angústia em como deixar o antigo GO estava fortemente presente na Natália. Fiz minhas colocações e deixei que o tempo assentasse o medo e aflorasse o empoderamento.  

Fui para casa feliz porque não há assunto que me deixe mais satisfeita do que falar sobre parto. Ainda mais com alguém que se inicia neste tema. É lindo e tenso perceber, como Psicóloga, como as pessoas reagem as mudanças. Encanta-me poder participar deste processo de transformação e me transformar junto com ele. Mas esse caso me reservava muito mais do que a posição de observadora.

Natália recebeu de uma amiga uma indicação de um médico humanizado que atendia pelo convênio e em uma maternidade privada. Marcou consulta e adorou a acolhida. Contudo o médico pontuou que ela não poderia me contratar pois a maternidade só aceitava as doula já cadastradas. Passou nome e contato para um novo vínculo. Essa é uma conduta questionável por todos os lados, mas falemos disso outro dia, o foco aqui é outro.

Assim que chegou em casa Natália me contou desta nova realidade, ainda pesarosa por me dispensar. Tudo que eu a disse se resume em estas frases, quer foram ditas de coração: Não se preocupe, doula é solução e não problema. Vai dar tudo certo! Estou feliz por ter conhecido vocês.

 A noite, durante a meditação, esse tema me veio a mente; Quando a primeira mensagem da Natália apareceu na minha tela era eu quem procurava uma resposta, de cunho espiritual. E ela me deu. numa sintonia divina, impressionante. Foi ela que veio me guiar, me doular, me orientar.
Ao mesmo tempo em que eu fui contactada pela Natália, eu me preparava para duas grandes mudanças: parir meu segundo filho e logo depois, me mudar de estado. Sim, estou me retirando para São Paulo.

A convivência com a Natália me fez atentar para algo importantíssimo em períodos de mudança: se apegar e se desapegar. Acolher aquilo que o universo nos mandar e deixar partir aquilo que deve ir. Sem sofrer, mas grato pela presença. Por mais que eu ame estar entre gestantes, e sobretudo, por mais carinho que a ideia de doula-la me trouxe, era preciso consentir que essa tarefa fosse dada a outra Doula para que eu expandisse esse ensinamento a instâncias diferentes da minha vida. Desapegar não significa se desligar. Eu não me desliguei da Natália, talvez agora estejamos ainda mais sintonizadas. Esse episódio me preparou para outros desapegos maiores e mais fortes: a distância física da minha família, dos meus amigos, dos meus vizinhos, do meu trabalho, das minha doulandas, da gravidez... O desapego é um convite a abrir mão da lamuria que nos toma tempo e energia e conscientemente criar espaço na mente e no coração para a chegada do novo. O futuro não se sobrepõe ao passado,mas nunca se acessa o presente se não desapegarmos do luto de avançar na vida. Eu estou plenamente aberta ao destino que esta mudança me reserva, por que o futura chegará de qualquer forma, mas será mais amigável se eu bendizer o presente. Obrigada Natália, você me ensinou que deixar ir é deixar que eu vá. Em oração estarei com você todos os dia.

 Aeee galera de SP, tamos chegando!

Links pertinentes
http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/indicacoes-reais-e-ficticias-de.html

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Lições de Psicologia à Assistência ao Parto ou sustos de uma acadêmica


Essa história que eu vou contar aconteceu comigo quando eu era acadêmica de Psicologia num Hospital Oncológico. Num feriado qualquer, estava eu sozinha no setor e quando terminei o trabalho, desci para a sala da Psicóloga.  Como não tinha atendimentos ambulatoriais naquele dia, o andar, que era antigo e escuro, estava deserto e com um aspecto bem sombrio para a minha imaginação medrosa. Pensei:

_Calma! Vou deixar minhas coisas na sala correndo, pego minha bolsa, mais correndo ainda e saio voando daqui.

Entrei na sala tipo policial do BOPE, olhando para todos os lados antes de avançar, fechei a porta correndo, e fui desabotoando o jaleco na velocidade cinco. Batem na porta. PQP, sô! Respirei fundo, “Coragem mulher!”. Abri a porta e lá estava um ser com o semblante mais cadavérico que eu já vi na vida. Pra testar se eram meus dons mediúnicos se manifestando ou a minha imaginação de” fantástico mundo de Bob” me pregando uma peça, perguntei:

_Pois não, no que posso ajuda-la?

Por um segundo pedi a Deus que ela dissesse:

_ Nada não, boba, foi engano.

Mas...

_ Você é a Psicóloga?

_Não, sou a acadêmica dela.

_Serve você.

Entrou e fechou a porta.

Tremor

_ Preciso que você me responda uma pergunta: Os mortos podem voltar para falar com os vivos?

Tremor x 2

Pensei: desde que não seja pra falar comigo!

Neste momento parapsicológico, respirei fundo, revesti-me de toda coragem e arcabouços teóricos e falei de forma bem original:

_Fale mais sobre isso!

_Minha mãe ta internada aqui e o médico disse que ela não terá muito tempo de vida. Então eu preciso saber se ela poderá voltar para falar comigo.

Meu coração se compadeceu daquela mulher, como deveria ser terrível perder a mãe. Eu não podia nem imagina tal situação. Um lampejo de pena passou por mim, mas eu não permiti que ele se instalasse. Repassei na mente todas as aulas, a análise e as supervisões  para entender que não era sobre o meu prisma que eu deveria atendê-la. O Sujeito daquela sessão era ela e não eu. Se eu fosse me basear pelos meus sentimentos eu a abraçaria e choraria seu pranto. Mas ela buscou uma psicóloga e o meu papel era de escutar e não falar.

_A Senhora deseja que ela volte?

_ Eu sempre fui expansiva, falava alto, ria alto... e minha mãe passou a vida me controlando. Não ria assim, não fale assim, isso não é coisa de mulher descente. Fui definhando. Um dia perguntei:

_Mãe, a senhora nunca vai me deixar em paz?

E ela respondeu:

_ Nem quando eu morrer!

_ Então doutora, ela pode ou não voltar?


Esse foi um dos grandes ensinamentos que tive em Psicologia. É o sujeito quem significa sua vida, suas experiências, suas dores. O tratamento psi pode ajudá-lo a revisitar estes momentos e ressignifica-los, mas sempre partindo daquilo que ele vê e como ele vê. Se ao invés de ouvi-la eu a tivesse abraçado e dito coisas como: “Não se preocupe, sua mãe estará sempre com você, onde quer que você esteja...” Eu teria pagado o maior mico deste e do outro mundo.

Agora já formada e como doula, percebo que na assistência as gestantes, muitas vezes, não se percebe essa lógica.  Como se todas as mães fossem iguais, como se toda experiência de parto fosse igual. Estabeleceu-se um padrão ouro no qual todas almejam e só algumas iluminadas alcançam e as outras se culpam por não terem chegado lá. Isso é cruel. Quem significa o parto e a maternidade é a mulher.

Para assistir a gestante é necessário partir de um pressuposto muito caro a Psicologia: Iniciamos o atendimento cientes de que não sabemos nada daquele sujeito. NADA! Parece simples, mas não é. Você tem que se desapegar das suas convicções e saberes para entender que na sua frente há um ser com desejos desconhecidos, mesmo que você o conheça.

Agora se você está diante de uma grávida como: ativista, familiar, amigo ou colega de consultório, tente fazer esse esforço de incentivar o protagonismo tendo como base o sujeito e não o movimento. Aí  você me diz, mas ela é minha filha, sei que ela não suportará a dor, ela não tem estrutura para parto normal, eu não tive. Pronto, já se sabe de quem estamos falando. Dê um passinho pra trás, minha senhora e vamos começar novamente, ok?!

Essa é a hora de ser humilde. É a hora de mostrar que tudo que você sabe sobre doulagem, enfermage, psicologia, obstetrícia, pediatria... não servem para nada no que diz respeito aquele ser, se você não permitir que ele fale. Não é porque muitas mulheres tem medo da dor e preferem agendar uma cirurgia que aquela ali na sua frente também vai querer. O parto de cócoras é muito bem indicado pela fisiologia do parto, reduz o risco de laceração, conta com a ajuda da gravidade, ok, tudo certo, do jeito que você aprendeu na faculdade. Mas essa mulher quer parir deitada, posição litotômica. Parece ilógico, parece que você está atirando seu ativismos pela janela, mas não, você está acolhendo  uma pessoa diferente de você. Não se conhece sua vida, seus traumas, suas questões. Respeite o outro pelo que ele é, pelo simples fato dele não ser você.

Ah, menina, se fosse eu transmitia o parto pela internet. Parir é lindo demais! Mas ela não quer. Não quer a doula, não quer o marido, quer a amiga e só. E só. Aceite.
As mães, quando estão assim como você, adoram quando a gente faz encurtamento de colo. Eu enfio os dois dedos e na hora da contração eu empurro o colo pra trás e você faz força pra frente. O bebe nasce rapidinho. Vai nascer aqui na minha mão, quer ver. Vamos lá!

Não, não existe uma categoria “todas as mães”, nem “todos os bebês” ou “todos os doentes”. Existem,, pessoas e mesmo que a ciência universalize o saber, nós não podemos anular o particular. Cada mulher é uma mulher e cada mãe é uma mãe, na vida e na morte.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Relato de Doulagem - VBAC Domiciliar com transferência Hospitalar

Diário de Sonho



A leitura desse relato ganha luz quando acompanhada da música abaixo:
Nando Reis - Muito Estranho - Clipe Oficial: https://www.youtube.com/watch?v=FwfC6GqH6cQ


Eu tenho um Uninho prata, 2011, desses bem populares, tipo Gremilins, a todo lado que se olha, vemos um igual. Além dessa características "sessão da tarde", ele tem atribuições transformers. Sim! O rádio do meu carro fala comigo. Ainda bem que psiquiatras não frequentam páginas de humanização. Enfim, num dia tava eu dirigindo, tocou uma música que amo: "Trem do desejo", cantado pela Maria Bethânia que amo mais ainda. Antes de acabar a música, meu celular tocou, era a Carol, minha parceira querida de Doulagem, que me falou com seu sotaque do sul: _ tu topas um parto domiciliar?
_Uai, respondo eu. Topo! O nosso primeiro PD.


Lá fomos nós pra casa da Cliente. Cris, Leandro e Vicente, o filho mais velho de três anos. Coincidentemente, como a Carol,  eles eram do sul, tinham profissões próximas e torciam pro Inter. Eu era a única representante da massa atelicana naquela sala. Cris, era professora universitária, bem informada e empoderada. Teve seu primeiro parto roubado pelo sistema em uma cesárea desnecessária, por bossa, com bolsa integra. Por isso, ela frequentou grupos de apoio, leu bastante sobre o tema, tinha os contatos, mas com 39 semanas ainda não tinha decidido se contrataria ou não uma doula.


Leandro estava super envolvido com a gestação e parto. Disposto a construir uma história diferente para Isadora, a bebê da vez.  Contou como estava atarefado com todos os ítens para o conforto da Cris e da equipe. Vicente é comunicativo, amoroso e mescla os dois sutaques deliciosamente. O encontro foi agradável,  mas saí de lá com duas dúvidas: Cris desejava mesmo uma doula e este parto seria de fato domiciliar?


Cheguei em casa cansada. Minha filha estava agitada, talvez por reflexo a minha agitação mental. Não quis mamar. Dormi junto com ela sem meditar. Dispertei num sonho. Estava no Sofia, em trabalho de parto, mas não conseguia parir. A enfermeira homeopata, (que é a própria representação da sabedoria feminina) em tom de autoridade, me falou: _ sai daqui! Se permanecer não vai conseguir parir. Acolhi o que ela disse, mesmo sem entender e fui para a casa das práticas integrativas. Estava acompanhada da minha Doula Kalu, não podia vê-la, apenas sentia sua energia e os cachos do seu cabelo sobre meus ombros.  Ali minha filha nasceu. Eu a peguei no colo e quando olhei para o seu rosto ela era a Cris.


Acordei assustada. O sonho foi tão real que eu podia sentir reflexos das contrações. Fui a cozinha, tomei água.
Quando voltei fui ver as horas e vi que tinha uma mensagem. Era da Kalu. Pedia ajuda no grupo de Doulas,  para ficar com uma gestante. Eu me propús, mas com a condição de um tempo reduzido, ridículo. tive medo, de dirigir "na noite escura"*, de deixar minha filha, enfim de sair da minha zona de conforto. Não fui capaz de escutar o que a enfermeira me disse: você só vai parir/ renascer/ doular quando se lançar no desconhecido.
Acordei menstruada, o que explicava as cólicas da noite, mas simbolicamente podia ser a natureza me mostrando que é cíclica e quem sabe na próxima lua eu tenha uma outra chance.
Exatamente sete depois a Cris me ligou confirmando a nossa contratação e pedindo uma visita. Não pensei que fosse tão rápido, mas dessa vez não perderia "o trem"*. Entendi que: quando "eu me perdi, foi que aprendi a brilhar"*.  Liguei para a Caroline e deixamos tudo acertado.
Três dias depois, Cris me ligou, em trabalho de parto na fase latente e pedia minha presença. Deixei meu marido  cuidando da minha filha e fui.


Cheguei às 23:20h à casa dela. Prestei a assistência possível, mas pouco efetiva. Praticamente não conversamos. Ela tentava se concentrar na dor, na posição, na respiração, na barriga... E a impressão era de dispersão por múltiplos focos. Tudo a retirava de si: a casa, as pessoas, os ruídos. Estava nítido que havia um excesso no ambiente interno e externo. Mas tudo estava sendo experimentado, então não havia o que descartar só o que acolher.


De madrugada a Míriam chegou. Calma e serena, iluminou a casa com sua paz. Trouxe mil malas, se certificou que tudo estava certo e para o meu espanto deitou e dormiu de roncar! Pensei: como ela consegue? Eu estava tão travada que não durmiria por nada. Às 9:00H, por recomendação da Miriam me recostei no sofá. Peço a Deus que não tenha acordado o Vicente com meus roncos. Aqui recebi outro ensinamento de uma Mãe Selvagem**: "cuide-se para cuidar!".


Saí da casa às 11:30h do outro dia. Morta! Minhas forças foram gastas nos meus investimentos também dispersos e na minha frustração do parto não ter ocorrido.


Dormi à tarde toda e a noite toda. Acordei com a mensagem da Carol me chamando para rendê-la novamente, o parto parecia estar distante. Liguei pra minha mãe pra ela ficar com minha filha e fui. Peguei um engarrafamento mostro e fiquei refletindo sobre meu cansaço. Conclui que eu apenas receberia o que o dia me apresentasse. liguei o Rádio e tocava "Cuida bem de mim". OK Uninho, entendi,  tudo o que eu não fiz no dia anterior foi cuidar de mim: não me alimentei direito, não descansei, não reapirei corretamente... Desperdissei minhas energias tentando ser constante e fui ausente de mim mesmo.


Chegando lá fui recebida por todos no portão. Cris tinha outro semblante. Perguntou sobre o meu parto e como ele foi conduzido. Respondi a tudo e com a acalmada das contrações sugeri um escalda pés. Tive a assistência fofa do Vicente. "Vou por maise, num tô sentindo cheiro de lavanda". Um doulinho!
Conversamos. A Míriam, chegou e completou o grupo terapêutico. Cris pode falar sobre suas expectativas, os estímulos da casa e seus medos. Foi um bom momento.


Fomos caminhar e ainda falando sobre parir em casa eu contei sobre o meu sonho. Pareceu importante me colocar um pouco mais como pessoa para que ela também se apresentasse um pouco mais. A mensagem do sonho fez sentido para ela também. Contei também que no dia da visita uma fala dela gritou no meu ouvido de psicóloga. Ela falou que a casa aonde moravam, naquele momento, nao era o imóvel que ela idealizava para o parto. Ela relembrou a frase e disse que estas observações a ajudaram a pensar melhor.
Fizemos uma visualização do nascimento e ela pôde descansar por um tempo junto com o Leandro.
Durante o dia foi acarinhada pela mãe, recebeu declarações de amor do Vicente e muito cuidado do marido.
A enfermeira Janaina, fez um rebozo na Cris e depois eu tive que fazer outro no Vicente. A Jana amorosamente falou sobre o modo de viver as contrações e deu dicas preciosas. E a Cris externalizou a dificuldade de gerenciar respiração, pensamentos, dor... Então sugeri:_ quem sabe não seria melhor não pensar em nada. Ela fez um expressão de perplexidade. Sim! Esvazie a mente!


À noite, por volta de 23:00h, as contrações, que até agora foram irregulares, se intensificaram. Leandro amarrou o sling na grade da janela e Cris podia puxá-lo quando vinham as dores. Depois de uma horas com o mesmo padrão acompanhei Cris até o chuveiro e pedi ao Leandro que ligasse para a Míriam. Ela veio acompanhada da Karina, enfermeira da sua equipe, super competente e com ótima didática para explicações. Achei que Isadora chegaria naquele momento. Mas... Não.


Pela manhã o trabalho de parto desengrenou. Foi feito um toque e estava com 4 cm de dilatação. Fui rendida pela Carol. Saí de lá às 7:00h da manhã do outro dia, tranquila e energizada, pois não me movi contra os fatos, apenas os acolhi. Cheguei em casa, dei de mamá e dormi duas horas abraçada com a minha filha.
No horário do almoço Carol mandou uma mensagem informando que eles estavam no Sofia e ela não poderia ficar por muito tempo.


Cheguei ao Sofia às 15:15h. Tinha um clima de tensão no ar. Havia uma marca na barriga da Cris. Começaram a investigar ruptura uterina, devido a cicatriz da cesárea anterior. Foi avaliada por dois GO's e fez ultrassom. Passou-se uma sonda de alívio e foi retirado uma quantidade expressiva de urina. Boa parte do anel se desfez. Ficamos mais tranquilos e ela se animou a se movimentar. Dançou com a Míriam, acocorou e comeu salada de frutas, tudo bem, até começar a sentir calor. Mediu-se a temperatura e o médico diagnosticou febre intra parto e prescreveu antibiótico. A Miriam sugeriu um banho e o casal foi para o chuveiro. Eu já estava sentindo vertigem de fome, me sentei para comer alguma coisa. Com uma mordida no pão de queijo escutei um grito do Marido pedindo ajuda. Era o primeiro puxo. Não deu tempo para o antibiótico.


Tentou a banqueta, não foi confortável, tentou o arco sobre a cama não foi aconchegante, mas não dava mais pra mudar, Isadora já coroava, embora Cris ainda quisesse experimentar outras posições.
Com 20 minutos de expulsivo, Cris pariu lindamente acocorada sobre a cama amparada pelo marido, às 18:30h de terça feira.
Olhei para eles, visão turva pelos olhos cheios de lágrimas e vi o alívio da Cris, o orgulho do Leandro e a contemplação afetuosa da Míriam.
No total foram 90 horas de doulagem, revezados entre Carol e eu e só depois do expulsivo pude entender melhor a Cris. Na minha interpretação ela era alguém a quem o saber formal era importante. Por isso, no seu primeiro parto entregou-se a tutela médica hospitalar. Onde culturalmente acreditamos  estar bem amparados. Mas não esteve. Na jornada desta gestação ela precisou inquerir todo saber: da enfermagem, da doula, dos médicos, mas principalmente o próprio saber. Desconstruir e reconstruir seus planos a partir da experiência. Para essa vivência "um dia foi pouco", foram precisos quatro dias. Por que cada um tem um tempo e dar prazo para elaborações psíquicas é desumano.  No parto não estão envolvidos apenas um útero, uma vagina e um bebê, mas sim uma mulher (com tudo que isso quer dizer e ainda não diz), uma criança e um ethos (modo de vida de um povo).
A todos que de algum modo ficaram sabendo do tempo total do trabalho de parto, seguiu-se imediatamente o comentário:_"Coitada!". Isso diz de nós. Retrata como almejamos uma vida súbita e indolor. Cris, você não tem nada de coitada, tão pouco de heroína, já que o oposto seria a face da mesma moeda. Acho que você é uma Mulher que, nesse tempo, pôde cuidar da sua criança interior e da bebê que gestava. E mesmo que pareça "muito estranho"***, você fez o melhor por seguir seu desejo, já que " ninguém vai dormir nossos sonhos"***. Viva o sonho de ser mãe da Isadora e do Vicente!


* Trem do desejo, Vanderlee
* * Mulheres que correm com os lobos
*** Cuida bem de mim, Dalton






Relato de Doulagem - Minha primeira Doulagem.


Parto Selvagem


Conheci a Vanessa pela lista de discussão do Parto Ativo. Eu me ofereci para assiati-la e a Caroline, colega de turma do curso de Doula, também. Combinamos um almoço após sua consulta de pré natal no Sofia para acertar como seria essa assistência.
A empatia foi instantânea! Vanessa é desse tipo de pessoa cativante que tem a capacidade de construir amizades de infância em poucas horas.
Ela estava com 37 semanas da primeira gravidez, diagnóstico de dibetes gestacional e insulinodependentes, desde então. Seu bebê já estava grande e por estes motivos, o médico prescreveu indução do parto no dia 08/08, completando 39 semanas. Mas seu sonho era entrar em trabalho de parto, sentir as contrações, vivenciar o rompimento da bolsa e poder parir seu filho da forma mais natural possível.
Conversamos com a enfermeira obstetra Raquel que reinterou as indicações do médico e se prontificou a fazer um descolamento de placenta na tentativa de estimular o trabalho de parto. O que foi feito de forma parcial e sem sucesso em seu objetivo final.
Duas semanas se passaram e apesar de apresentar 3 cm de dilatação nenhum outro sinal se apresentou. Carol e eu fomos acompanhado esse processo virtualmente.
Sem iniciar os trabalhos de forma natural, seguiu-se o plano da indução com mizo agendada para a sexta. Como a Carol tinha uma viagem para o sábado ela ficou de backup. Vanessa preferiu não acrescentar outra Doula à cena.
Outra baixa no pelotão do parto foi a Natália, irmã da Vanessa, que iria tirar as fotos e se acidentou dias antes. Nada grave, mas foi tirada de combate. Sendo assim, seguimos para o hospital: Vanessa, Fábio (o pai) e eu (a doula).
Chá de cadeira na triagem do Sofia até a chegada da Eliane, enfermeira e mãe da Raquel, que agilizou a internação. Admitida pela Enfermeira Priscila que fez o toque, 3 para 4cm e o cardiotoco. Ministrou 1 comprimido de mizo que requer uma hora de repouso. Daí em diante todo encontro que tivemos foi pedagógico pra mim e abençoado para o casal.
Uma senhora bateu na porta, entrou discretamente e se identificou como Terezinha, mostrou orgulhosa o crachá de Doula, funcionária do hospital. Fui até ela, disse que também era doula. Ela disse que sairia.
_ Não, fique. Conta do seu trabalho. Ela falou da recente contratação, lembrou dos próprios partos e dos 19 anos de trabalhos voluntários na maternidade. Ela era a voz da experiência em pessoa. Grudei nela. Rsrs Ela nos abençoou e foi para outro quarto.
Em pouco tempo chegou outra doula do hospital, Dona Maza. Alegre, despachada, neta e filha de parteiras. Contou que a contratação foi um empoderamento vindo de outra mulher: _" A Dilma mandou e eles tiveram que contratar nós ".
Vanessa dormiu, sai do quarto e encontrei minhas colegas do lado de fora. Dona Maza veio me falar: _"Oh minha filha, vou te falar uma coisa porque você é nova mais num é dessas que acham que sabe tudo. Essa moça, pelo que eu vi lá, tem tudo pra ir pra cesárea. Você tem que por nela o espírito de luta."
Eu mais que depressa pedi umas dicas. Ela levantou da cadeira e foi me mostrar.
_"você leva ela pro chuveiro, faz ela abaixar (e abaixou) e levantar (e levantou na mesma velocidade) e rebolar (e rebelou). Repetiu a fala e os movimentos mais três vezes. Enquanto memorizava as dicas não podia parar de pensar que se fosse eu não subiria na primeira abaixada. Falou ainda sobre empoderamento feminino, direitos reprodutivos e doulagem. Dona Maza é Girl Power pra C****.
Fomos para as Práticas Integrativas. Quem nos atendeu foi a fofa da Cleuza que não só fez o trabalho dela com muito carinho como me ensinou a fazer o sal de rosas para o escalda pés, a massagear pontos importantes do pé para o trabalho de parto e ainda me incentivou nesse novo trabalho.
Saímos de lá com as primeiras contrações.
De volta ao hospital, fomos trocados de quarto para adequação ao plano de parto que pedia uma banheira. Coincidentemente fomos para o mesmo quarto onde eu pari. A suite máster do Sofia, como disse a Vanessa.
A parturiente permanecia serena, com a mesma cara linda e sorridente. O marido doulo, estava tão disposto quanto eu a turbinar os trabalhos.
Seguiu-se chuveiro, bola, exercícios, caminhada, agachamento.
Novo exame. Quatro para cinco centímetros de dilatação e contrações irregulares. Segundo comprimido de mizo. Mais uma hora de repouso.
Chegou a hora do jantar. Subimos as escadas e a Vanessa queixou dor pela primeira vez.
Voltamos para o quarto e de novo chuveiro. Sugeri ao Fabio que entrasse com ela. assendi algumas velas de vanila, música clássica e luz baixa. Os dois estavam em perfeita harmonia. Deixei-os. Nestes momentos podemos perceber que a dor não é protagonista. Ela é veículo. Transporta o que temos no coração. No caso deles ela carregou muito amor!
Procurei me manter focada nela, nas suas necessidades. Água, toalha, prendedor de cabelo, comida, calor, frio...
Como a gente esquece da própria fome quando foca na fome do outro. E ela agora tinha fome de Lorenzo. Desejava o filho logo. Seu marido a lembrava sempre:_"pensa nas bochechinhas dele, Amor".
Troca de plantão. Ficamos tensos pensando em quem nos assistiria e abre a porta uma amiga antiga da Vanessa, a qual não via há mais de 10 anos. Enfermeira do plantão. Fernanda, delicada e serena na décima potência.
Sem progressão, Fernanda rompeu a bolsa. As dores se intensificaram. Contrações ritmadas. Enfim o trabalho de parto engrenou e a ocitocina sintética não foi necessária.
Durante todo o tempo, mais agora ainda mais, Fábio foi seu incentivador e tudo com ótimo humor. Vanessa queixava do Ciático e ele queria pesquisar no google quem era esse moço. E por aí vai...
Foi para a banheira,  mas as dores a incomodaram. Pediu analgesia. Mas não falou a senha (Selvagem. Com letra maiúscula, pois se trata de um nome próprio. A cachorrinha do casal. Um barato, ne).
A ENF residente tentou alertar para os malefícios da analgesia, mas ela nem ouviu. Disse que não dava mais e foi acolhida. Mas, como o universo conspira a favor, nesse momento três partos em fase de expulsivo não permitiram executar o procedimento naquela hora. Avaliada para analgesia, 8 cm de dilatação! Obaaa!
Isso me deu esperança!
Indo para a sala de anestesia pedi a Deus que mandasse o melhor. Chegando lá nova conversa com a enfermeira que alertou para o risco de se mover durante o procedimento. Ela disse que não conseguiria ficar parada. Eu olhei bem pra ela e perguntei: tem certeza que você quer isso? Ela ficou me olhando com uma cara que parecia dizer: Pqp! Que furada que você me meteu! Eu respondi. Você não falou a senha!
Para me salvar de possíveis arremessos, a Enfermeira Raquel chegou. Ufa. Todos falamos frases de incentivo e ela decidiu tentar mais um pouco, recusando a medicação.
Ao retornar para o quarto ela se modificou. Vanessa intuiu que as contrações haviam se modificado, não eram mais a dor que a abria, agora eram uma pressão. Assim, sua forma frágil deu lugar a uma postura imponente. Dirigiu a cena. Comandou a todos nós. Dizia como queria ser amparada, onde e quando se sentar, o que desejava ver e ouvir. Era a única protagonista do seu parto.
Durante as contrações ugia como uma leoa, passava a mão vigorosamente sobre a barriga e pedia que o filho viesse. Percorria o quarto todo com os olhos fechados, em transe. Pensei: isso sim é espírito de luta. Selvagem! Dona Maza tinha razão, é assim que se pare.
2:39 da madrugada ela se sentou no banco de parto, recostada no marido. Em frente estava a EO Raquel e eu, segurando o livro de sua filosofia, com a foto do grão mestre.
Por vezes o Fábio olhou pra mim angustiado querendo notícias. Por vezes ela chorou por medo de não conseguir, por vezes eu tensionei o pescoço de ansiedade. E a Raquel? A mesma cara de tranquilidade. Rsrsrs
Às 4:13 horas da manhã chegou a esse mundo o Lorenzo. Coberto de verniz, rosa, lindo e enorme. Cheio de vitalidade foi direito para o colo da mãe, de onde só saiu horas depois para ser pesado. Ao vê-lo tão bem, sabia que isso se dava a forma respeitosa como tinha sido parido. Bebês de mães diabéticas quase nunca tem a oportunidade de nascerem assim. Ainda mais sem analgesia e ocitocina. Foi uma conquista e tanto daquela família.
Fiquei com eles até serem instalados no quarto e a amamentação estar fluindo bem.
Cheguei em casa ás 7:30 de sábado, 24 horas depois. Entrei no apartamento e encontrei tudo arrumado, filha bem cuidada e marido querendo saber da minha experiência.
Fui me deitar. Rezei, chorei, sorri e fui dormir com a certeza de que tinha encontrado mais um pilar da minha missão na terra. Agora eu sei que vim aqui para ser esposa do Daniel, mãe da Isabelle, Psicóloga e Doula.

Minha gratidão a esse casal por terem permitido que eu participasse desse momento.
A todos que encontrei neste dia e trouxeram ensinamentos tão preciosos, o meu muito obrigada.
A Minha família que cuidou da Bebelle para eu poder trabalhar, o meu amor mais profundo.

Ao Ishitar e suas mulheres, Rebeca, Carol, kalu e Polly, obrigada pelo curso de Doula e pela inspiração. Colegas de turma, recebi toda a vibração de vocês.